Há situações, momentos que sabemos que acontecem mas nunca paramos para pensar que também nos pode acontecer a nós e quando acontecem, sentimos nos tão pequenos, tão perdidos e tão não preparados...
Ontem aconteceu... sempre agarrada ao telemóvel, à esperança, eis que me ligam para me deslocar ao hospital o quanto antes para me despedir do meu pai... o médico dissera à minha mãe que as filhas iriam ainda querer vê lo com vida e ter a oportunidade de se despedirem...
Não queria acreditar no que estava a ouvir... era cruel, surreal demais... porquê? Porque me estavam a pedir para fazer uma coisa que eu não queria?! Porque me estavam a pedir para me ir despedir dele se eu nem sequer pondero a ficar sem ele?! O que é isto???
Desorientada, perdida e a sentir me num pesadelo bem real, meu cérebro parou...
Voei para Leiria, precisava urgentemente de abraçar a minha mãe e sentir o seu abraço...
Já no hospital, mas completamente perdida em portas e informações, vejo a minha mãe, sozinha, chorosa, mas calma, com a sua calma de sempre... abraçamos nos e nada dissemos... as lágrimas falavam por nós, o silêncio dizia tudo...
Sentadas naquela sala laranja, fiz lhe todas as perguntas que durante a eterna viagem Caldas- Leiria tanto me questionava...
...mas não queria ouvir as respostas... eram cruéis demais...
Mesmo quando uma das enfermeiras veio falar comigo a dizer que as filhas deveriam despedir se do pai, eu perdida nas suas palavras e no meu cérebro parado, perguntava me a mim própria "Mas porque teimam falar em despedida? Porque querem que me despeça?" Meu cérebro deixara de assimilar qualquer informação...
Entretanto minha irmã chega com nossa irmã de coração... mais uma vez as palavras deram lugar a abraços, lágrimas... há muito tempo que não abraçava assim a minha irmã... simplesmente deixamos nos estar...
Nestes momentos há tão pouco a dizer, mas há tanto a sentir...
Eram sete quando nos deixaram vê lo. Entrei com minha mãe... Olhei para ele... perdido por tantos tubos e máquinas, dormia sereno. Que imagem tão... tão sem palavras... se há momentos que as lágrimas se conseguem conter, este não era seguramente um deles...
Fazendo -lhe festinhas na careca, como tanto lhe fazia em criança, e dando -lhe muitos beijinhos, aproximei me de sua orelha e só lhe conseguia dizer 'Desculpa'... Desculpa por todas as discussões... Desculpa pelas palavras mais duras e impulsivas... Desculpa pela falta de compreensão em algumas situações... simplesmente... Desculpa.
Tínhamos que sair... mas eu não queria ir... e sempre que virava as costas, eu voltava atrás e ainda lhe dava mais um beijo, mais um carinho, pedindo -lhe para lutar, lutar sempre como sempre lutou nesta sua nossa vida, pois é por isso que todos o conhecem, por ser um lutador e pelas suas lutas serem um exemplo para todos nós!!
Mesmo com aquele horrendo cenário mesmo há minha frente, dei lhe mais um beijinho e segredei -lhe " isto não é uma despedida, meu querido Pai... se Deus quiser, será um Até Amanhã"...
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